sexta-feira, 27 de julho de 2012



cabelos ruivos
legítimos
ela os põe em movimento
e pergunta
“meu rabo continua gostoso?”
que comédia.
há sempre uma mulher
pra salvar você de outra
e assim que ela o salva
está pronta para
destruí-lo.
“às vezes eu odeio você”,
ela disse.
afastou-se e foi se sentar
na minha varanda para ler meu exemplar
do Catulo, e ficou
por lá cerca de uma hora
as pessoas passavam de lá para cá
em frente à minha casa
se perguntando como um
cara tão velho e feio podia arranjar
uma beldade daquelas
nem eu sabia.
assim que ela entrou eu a puxei
para o meu colo.
ergui meu copo e lhe
disse, “beba isso”.
“oh”, ela disse, “você misturou
vinho com Jim Beam, logo vai ficar
safado”.
“você passa hena nos cabelos,
não?”
“você não enxerga nada”, ela disse e
se levantou e baixou
suas calças e a calcinha e
os pelos lá embaixo tinham
a mesma cor dos cabelos
lá em cima.

o próprio Catulo não poderia ter desejado
graça mais histórica ou
magnífica;
depois ele se
enamorou de
rapazolas
insuficientemente loucos
para se tornar
mulheres.


Charles Bukowski em Ruiva de cima a baixo
 Andava com mania de suicídio e com crises de depressão aguda; não suportava ajuntamentos perto de mim e, acima de tudo, não tolerava entrar em fila comprida pra esperar seja lá o que fosse. E é nisso que toda a sociedade está se transformando: em longas filas à espera de alguma coisa. Tentei me matar com gás e não consegui. Mas tinha outro problema. Levantar da cama. Sempre tive ódio disso. Vivia afirmando: "as duas maiores invenções da humanidade foram a cama e a bomba atômica; não saindo da primeira, a gente se salva, e, soltando a segunda, se acaba com tudo". Acharam que estava louco. Brincadeira de criança, é só disso que essa gente entende: brincadeira de criança - passam da placenta pro túmulo sem nem se abalar com este horror que é a vida.


 Sim, eu odiava ter que me levantar da cama de manhã. Significava que a vida ia recomeçar e depois que se passa a noite inteira dormindo cria-se uma espécie de intimidade especial que fica muito mais dificíl de abrir mão. Sempre fui solitário. Você vai me desculpar, creio que não regulo bem da cabeça, mas a verdade é que, se não fosse por uma que outra trepadinha legal, não me faria a mínima diferença se todas as pessoas do mundo morressem. É, eu sei que isso não é uma atitude simpática. Mas ficaria todo refestelado aqui dentro do meu caracol. Afinal de contas, foram essas pessoas que me tornaram infeliz.       




 - Charles Bukowski

terça-feira, 24 de julho de 2012

Enfim, 19.


Dor de cabeça forte, pulei da cama.
Todos me olhavam com cara de dó.
Odeio isso.
Fui ao portão, ver o céu.
Um copo de felicidade...
- Essa hora da manhã você já vai beber?
- Sim, e finja não se importar...
Na parede do outro lado ‘’Te amo’’, rabiscado com um pedaço de tijolo, ainda tão vivo, um laranja que me arrancou um sorriso.
Precisava dela, ali comigo, mandando eu me cuidar...
- O que você ta olhando?
- Só pensando um pouco na vida.
Mais um gole.
- Sobre o quê? Exatamente...
- Quando eu vou acordar...
Outro gole.
- Você é tão decidido...
- Eu sei, e isso me consome cada dia mais.
O ultimo gole, aquele que você sente o gosto de álcool na boca e sua boca lateja.
- Eu vou entrar... Quando ela vier aqui pede pra ela retocar aquele ‘’te amo’’,  já não ta mais tão forte...
- Ok...
- Entra, não aguento te ver nesse estado, vai tomar um banho, fazer a barba, cortar o cabelo...
- Depois...
- Ta bom, parabéns...

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Envelheço na cidade


Então chegou a tão esperada hora.
A versão ''beta'' esta por vir.
Vou ser um carro desgovernado sendo guiado por um bêbado sem família.
Vou atropelar e deixar alguns corpos pela estrada.
E vou ser feliz.
Apague a luz, e um beijo meu amor.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Dia 1, ou 2...


E vai acontecer de novo.
A sensação de frio na barriga passa, mas a dor de cabeça fica.
Ontem, naquele mesmo sofá, eu tinha motivo pra ser feliz.
Hoje, a tv desligada diz que estou sozinho.
Falta algo.
A dor não me deixa pensar.
E ela continua ali, intacta, sem piscar, com o coração ferido.
Vem aqui, me diz pra tomar remédio, mas vou ser idiota o bastante pra não tomar, tenho medo dos efeitos colaterais, e ela sabe disso.
O calafrio é constante.
A vontade de sair daqui também.
‘’No direction home’’.
 Preciso de um abraço, um beijo forte, e uma marca roxa no pescoço.
(...)
‘’Armários e gavetas sem nada seu pra guardar, é tão estranho como as coisas mudam sem avisar. ’’
(...)
‘’E é tão estranho quando eu deito só e não sei como agir’’