- Não sei ao certo quando isso aconteceu, talvez uns 5 ou 6 meses.
Foi tudo tão derrepente, começou do outro lado do mundo, e, do nada, já tinha chegado na nossa cidade.
Me lembro a primeira vez que vi um deles, era uma segunda-feira de manhã, não tinha muito sol, mas estava calor. Meu pai me acordou cedo demais, me tirou da cama me pegando no colo e falou ''não olhe pra rua, por favor, não olhe pela janela''. Woody latia desesperado, como se tivesse algo tentando mata-lo, passamos do lado do monstro, ele mordia Woody com ferocidade, tinha uma poça de sangue no chão, talvez o sangue do Woody, ele não latia mais, nem chorava, não nos acordaria de madrugada, estávamos fugindo daquela cidade, e talvez, ele esteja morto agora.
Meu pai me jogou no banco de trás do carro, minha mãe já estava lá, e já tinha algumas malas, ela me deu um cobertor e pediu pra mim me esconder de baixo dele. Meu pai carregava uma arma no colo, nunca tinha visto uma antes, nunca pensei que veria uma. Ele dirigia com desespero nos olhos, e percebi uma lagrima escorrer antes de me cobrir, minha mãe tomava cuidado pra que eu não saísse debaixo do cobertor. Eles me protegiam, não era tão jovem assim.
Eles me protegiam muito, talvez como se protegessem uma garotinha de 5 anos, porque você nos deixou? Era pra você estar de baixo daquele cobertor enquanto eu olhava pela janela, enquanto eu olhava o monstro comendo Woody. Você amava o Woody, e eu, amava você...
Aquela cidade era mais colorida quando brincávamos no playground daquela praça Talvez eu deva parar de escrever sobre você, pelo menos por aqui. (...)
Fiquei o caminho todo debaixo do cobertor, um garoto de 17 anos não podendo olhar pela janela do carro e ouvindo minha mãe dizer ''Tudo vai ficar bem querido, não se preocupe...''
Estávamos a quase uma hora dentro do carro, eu já estava muito suado e com falta de ar, minha mãe cuidando para que eu não saísse de baixo dele, eu escutava barulho de choro que vinha do lado de fora e também vinha de dentro do carro. encontrei uma brecha no cobertor e olhei para a frente, o céu tinha escurecido rápido, não reconhecia aqueles prédios, a cidade estava calada, talvez não tivesse monstros ali...
- Que porra é essa mano? Toda vez que você fica bêbado conta a mesma história, eu já conheço de cór e salteado... Para de beber, me da essa garrafa, vai dormir, eu fico vigiando...
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