- A comida daqui é horrivel.
- Eu sei.
- É bem pior do que você imagina... E a tv?! Só funciona
esse canal, e mesmo assim, a imagem não é aquelas coisas...
- Tá bom...
Uma garota sorria na cama ao lado, eu disse oi, e sorri
também.
- Ela fica assim o dia todo, o medicamento que dão pra ela é
bem mais forte do que o meu.
- Ela sempre sorri?
- Sim...
Pensei em perguntar aos enfermeiros o nome do remédio, o
usaria todos os dias, sem medo dos efeitos colaterais.
- Tá tudo bem em casa? Como tá bagunça?
- Tá tudo arrumadinho – menti.
- É sério?
- Sim, quando você volta pra casa? – meus olhos encheram de
lagrimas.
- Não sei, talvez sexta, ou sábado.
Sorria, mais do que a garota da cama ao lado, e sem precisar
de tantos medicamentos.
- Desce lá, deixa eu conversar um pouco com a sua irmã,
explica direitinho pra ela, fala que é no quarto andar, no quarto 537...
- Tá...
- Você tá bem?..
- To sim, não precisa se preocupar...
- Fase de novo?...
- Talvez sim...
- Vai lá... Antes vem aqui, me da um abraço...
Quente, confortável, anestésico...
- Eu te amo.
- Também... – Dei as costas e fui em direção a saída.
Com os olhos cheios de lagrimas, fazia tempo...
Aperto o botão do elevador, e espero, enquanto coloco alguma
musica pra tocar no celular.
O elevador chega, a porta abre.
Jullian, vestido de médico.
- Desce?
- Sim... Até o térreo né Elivelton.
- Isso...
- Você esta crescendo tão rápido...
- A gente não escolhe crescer...
Terceiro andar.
- Ela vai ficar bem, eu to cuidando dela.
- Eu sei...
- Falei pra você não se preocupar... Que tudo ia dar certo.
- O médico me chamou de canto antes de entrar no quarto, ele
tentou me acalmar também, mas quando ele disse ‘a chance de sucesso da operação
é de 90 % pode ficar tranquilo’, os outros 10% não saiam da minha cabeça...
Segundo andar.
- Abaixa o volume da musica, não precisa se segurar com
tanta força nas barras da lateral... O elevador não vai cair...
- Quem garante?
- Eu! Por que não vai confiar em mim, estou do seu lado
desde seu nascimento, desde quando você quase morreu, era só um bebe quando viu
a morte pela primeira vez... Ela chorou pra caralho, Ele também...
- Eu já sei da historia inteira, sobre as visitas
constantes, sobre eu ficar na incubadora, sobre os banhos de luz, sobre o
traumatismo craniano...
- Relaxa...
Primeiro andar.
- Olha, como ela fica parada, absorvendo as informações em
volta, parece com você...
- Não quero essa loucura toda pra ela.
- Não é loucura, analise como uma benção...
- Ou uma maldição...
- Pode ser os dois.
Abençoado por uma maldição.
Térreo.
Ela me esperava na porta do elevador.
- Qual o andar?
- Quarto.
- Tá, eu vou lá rapidinho, já volto.
- Vai lá...
I’m getting old, i’m not a kid anymore...
Nenhum comentário:
Postar um comentário